As pernas já não aguentavam e eu continuava correndo, o sangue escorria. Não sabia por quanto tempo mais, só precisava chegar. O som daquela respiração ainda ressoava em meu ouvido. Corria e chorava, caía e chorava mais. Meus pés doíam, machucados pelas pedras e pelo lixo que pisoteei sem perceber. Meus cotovelos e joelhos ralados pelas quedas.

Um caminhão passou fazendo barulho, corri, gritei, em vão. Resolvi seguir na direção contrária à dos carros, se fosse atropelada estaria no lucro, mas nenhum outro carro passou. Já não corria, me arrastava, sentindo todas as minhas carnes latejarem. …


É véspera de Natal. Em volta da mesa, os três. Ali, onde estiveram por tantos anos, cada um em seu lugar.

As cabeceiras estão vazias.

Quem puxa a conversa é o irmão mais velho, Roberto:

− Eu não aguento mais ter que lidar com isso sozinho. Cheguei no meu limite. − Suas mãos estão espalmadas no centro da mesa, cada um dos dedos não encosta nos demais.

− Eu só não entendo por que você não falou antes. − Quem está falando agora é o segundo. O filho do meio. O nome dele é Bernardo. …


Era um gambá. Não um passarinho, ou um rato, mesmo um morcego. Não era. Era um gambá. Caminhando devagar pelo fio da empresa de telefonia, entre um poste e outro. Pé ante pé, um gambá. Não sei como ele foi parar ali, ele também não sabe.

Os passarinhos tentaram ajudar. Acho que sim. Voaram por perto, piavam. Davam instruções, quero crer. Não falo passarês. Talvez tivessem zombando: fio não é lugar de gambá, você não é passarinho, sai daqui. Talvez perguntassem o que ele estava fazendo ali. O gambá não sabia: não sei, eu subi, eu não sei descer.

Queria…


Ela acorda todo dia às cinco e trinta e cinco. Ao lado da cama, o despertador que só toca para não perder o costume. Na agenda, o espaço em branco. O primeiro compromisso ela marca para as oito. Antes disso, o horário é reservado para o seu ritual diário.

Na casa que ainda dorme, apenas a cafeteira lhe faz companhia. A água borbulha ao ritmo de suas ideias. O pijama dá lugar à camiseta suja e ao avental. O escritório convertido em ateliê está à sua espera.

O barro endurecido recebe a água logo após a primeira xícara de café…


Casa

*

Se hoje eu morrer ninguém vai lembrar de mim

ninguém vai lembrar do horror

do medo, da dor

*

Se hoje eu morrer

e eu morri

ninguém vai lembrar de você

que morava aqui

*

Se hoje eu morrer, eu quero saber

onde você está

eu vou correr para te encontrar

te pegar nos braços e te dar meu peito

cheio de leite

te receber onde você morou

a única casa que você conheceu

fui eu

*

Se hoje eu morri

foi porque eu não percebi

que você aqui já não estava

já não mexia, já não chutava

*

Se hoje eu morri, foi por você

foi com você

*

Se hoje eu morrer

se hoje eu morri

foi porque não soube viver

dentro de mim


- Mamãe, você me conta uma estória?

- Conto sim filha, qual você quer?

- Uma estória de princesa.

- Tudo bem. Pode ser Branca de neve? Ou você prefere a Rapunzel?

- Não, mamãe, não quero essas princesas que existem.

- Que existem? Bem, elas não existem…

- Eu quero que você invente uma princesa nova.

- Uma princesa nova, vamos ver. Mas tem que ser uma princesa?

- Tem. E ela tem que ser linda e tem que ter um castelo.

- Ah, legal. Um castelo é sempre bom pra uma princesa.

- E tem que ser um castelo bem grande, mamãe, porque a princesa…


Quando você entra

Pode não querer sair

Tenho medo de ser vista

Ou invadida

*
Quando enxerga

O que não gosta em mim

O desgosto está em quem?

*

Uma amizade

Uma ofensa

Rompem-se as comportas

E continuamos sós

*

Quem somos

Sem os outros

Quem somos sem nós mesmo?

Incompletos

E satisfeitos

*

O que não suporto

Diz mais sobre mim

Do que sobre ela

*

Por que me ofende

Ao invés de me amar

Por que não suporta

Ao me olhar

Se ver, ao reverso

Inteira

Como os versos

Que lemos juntas

*

Porque não me deixa

Ser verdadeira

A mim só resta

Ser o espelho

Onde você se vê

E me rejeita

Por não ser

Você


O medo carrega o peso

de ser

o medo é meu, não dele

medo de não ter

um lugar

pra falta

que mora em mim

*

Medo de me expor

medo de descobrir

que não sou

medo de assumir

que faltou

coragem

*

Medo de sair

medo de largar

medo de não conseguir

voltar

pra cá

medo de ficar

no mesmo lugar

*

Medo de perder

a vez

de enlouquecer

de vez

medo de ficar só

e sóbria

*

Medo da completude

de ser engolida

medo das virtudes

que não tenho

medo do perfeito

que não veio

de novo

*

Medo de não ter voz

de não ter direito

o medo é um desejo

não satisfeito

que incomoda de tarde

e na hora do jantar

*

Eu tenho medo

de nomear


ônibus lotado

elevador vazio

praia deserta

igreja no domingo

pracinha na infância

cama da tia

escola depois do horário

banheiro da academia

pai da amiga

tio da van

primo mais velho

professor de natação

vizinho do andar de cima

namorado da irmã

amigo de infância

motorista da condução

em qualquer hora, lugar

clima, situação

gatilho é ser menina, ser mulher

ter vagina e dizer

NÃO.


Nádia se veste com cuidado. Coloca a meia calça devagar, sem deixar nenhuma ruga. O coque bem puxado, gel, grampo, laquê. Alisa cada fiozinho. Tudo no lugar.

Collant por cima, amarra a saia, calça a sapatilha. Respira fundo.

Na sala cheia de espelhos, ela esquece de se olhar. A voz da professora é alta.

Um, dois, três, quatro.

Fechou.

Um, dois, três, quatro.

Virou.

Um, dois, três, quatro

Cresceu

Frente

Costas

Ficou

Um, dois, três, quatro,

Cinco, seis, sete, oito

Libera a mão

Cabeça erguida

Pegou barra

Desceu.

A sequência em espiral, Nádia repete sem pensar. Cada músculo do seu corpo está envolvido em executar aquela coreografia. Cada centelha da sua ansiedade está anestesiada, ela só quer dançar. Ela só quer estar nesse lugar.

Fim de aula, Nádia relaxa. Cabeça leve, corpo suado.

Foi bom levar a alma para passear.

Carla Guerson

Feminista, escritora, geminiana, mãe, leitora compulsiva. Sou apaixonada pela narrativa e acredito que a literatura há de nos salvar, enquanto humanidade.

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